Não seria bom voltar a receber no correio mais do que contas e publicidade?

Abres a caixa do correio.

Uma conta da eletricidade.

Publicidade do supermercado.

Um folheto da pizzaria da esquina.

Fechas a caixa.

Amanhã será provavelmente igual.

E, no entanto, houve um tempo em que abrir a caixa do correio podia significar uma surpresa.

Uma carta de um amigo.

Um postal das férias.

Uma fotografia.

Uma notícia esperada há semanas.

Hoje quase tudo isso desapareceu.

E é fácil culpar os telemóveis, as redes sociais ou as mensagens instantâneas.

Mas acho que a resposta é mais simples.

Deixámos de escrever.

E, se nós deixámos de escrever cartas, também deixámos de dar aos outros a oportunidade de as receber.

Às vezes ouvimos alguém dizer:

“Já ninguém escreve cartas.”

Mas a pergunta que me faço é outra.

Quando foi a última vez que escreveste uma?

Não vale a mensagem de aniversário no WhatsApp.

Nem o áudio de dois minutos.

Uma carta.

Daquelas que obrigam a pegar numa caneta, escolher as palavras e pensar verdadeiramente na pessoa que a vai receber.

Porque escrever uma carta é um gesto estranho nos dias de hoje.

Não porque seja difícil.

Mas porque exige uma coisa que parece cada vez mais rara.

Tempo.

E talvez seja exatamente por isso que uma carta continua a ter um valor que nenhuma notificação consegue substituir.

Uma carta pode ser guardada durante anos.

Pode voltar a ser lida.

Pode passar de geração em geração.

Pode aparecer numa gaveta muitos anos depois e voltar a emocionar quem a escreveu ou quem a recebeu.

Quantas mensagens de WhatsApp vais reler daqui a vinte anos?

Provavelmente nenhuma.

E isso faz-me pensar que talvez não tenhamos deixado apenas de escrever cartas.

Talvez tenhamos perdido o hábito de criar memórias em papel.

No Projeto Postal Amigo acreditamos que ainda vamos a tempo de recuperar esse hábito.

Não porque seja nostálgico.

Nem porque “antigamente é que era melhor”.

Mas porque há gestos que continuam a fazer sentido.

E dedicar alguns minutos a escrever a alguém é um deles.

Talvez a próxima vez que abrires a caixa do correio encontres apenas mais uma conta.

Ou talvez possas ser tu a razão pela qual outra pessoa encontra uma carta.

No fundo, é assim que tudo começa.

Alguém decide escrever a primeira.


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