A verdade é que escrever aqui para vocês é fácil para mim.
Escrever a nível pessoal é outra história.
Ontem dei por mim a perguntar porquê.
Se eu gosto tanto de escrever. Se acredito tanto no poder de uma carta. Porque é que escrevo tão poucas?
E acho que encontrei a resposta.
O problema, para mim, não é escrever.
É a quem escrever.
Continuo a acreditar que escrever para instituições é uma ideia maravilhosa. E vejo todos os dias o impacto que uma carta pode ter.
Mas também me pergunto se, por vezes, um lar não terá mais para partilhar com outro lar. Se uma associação não aprenderá mais com outra associação. Talvez essas conversas façam ainda mais sentido do que ler o que aconteceu na minha semana.
Posso estar completamente errada. Mas foi um pensamento que me ficou.
Depois há a vida.
Como muita gente, vivo perto das pessoas de quem gosto. Vejo-as, telefono-lhes, mando mensagens.
Tenho uma sobrinha a viver na Holanda, mas falamos praticamente todas as semanas. Escrever-lhe uma carta parecer-me-ia… redundante.
E aqueles amigos que vivem longe?
Com muitos deles, a vida simplesmente aconteceu. O contacto perdeu-se. E, sendo muito honesta, não sinto vontade de retomar uma intimidade que já não existe.
Porque, para mim, escrever cartas é um ato íntimo.
Não consigo imaginar trocar palavras vazias só para dizer que escrevi uma carta.
Para isso já existem as redes sociais, onde todos os dias produzimos pequenas atualizações da nossa vida.
Uma carta, para mim, precisa de ser outra coisa.
Precisa de ter tempo.
Precisa de ter pensamento.
Precisa de ter um bocadinho de quem a escreve.
E foi aí que percebi aquilo que talvez andasse à procura sem saber.
Talvez eu não precise apenas de pessoas a quem escrever.
Talvez precise de pessoas com quem construir uma correspondência.
Pessoas que olhem para a vida com curiosidade.
Que também percam um domingo à tarde a pensar porque escrevem tão pouco.
Que gostem de perguntas mais do que de respostas.
Que tenham vontade de pôr um bocadinho de si num papel bonito, sabendo que, semanas depois, alguém fará exatamente o mesmo do outro lado.
Talvez seja isso que eu procuro.
Amigos por correspondência.
E agora fico a pensar…
Serei a única?
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